Ela parecia perdida em pensamentos, olhando um pequenininho passarinho, todo vermelho, que nem um carvão aceso, pousar lá em cima, num galho da árvore. Ora pela brisa, ora pelo suave balanço gerado pelo passarinho, uma folha se desprende da grossa folhagem, caindo com sutileza junto à sua mão.
“Qual é a sobremesa que tu mais gosta?” perguntou a nordestina, levando com delicadeza um pedacinho de pudim à sensual boca de lábios carnosos. Enquanto, com a outra mão, afastava um dos seus lindos cachos castanhos do rosto para me cravar, de lado aquele olhar profundo como a galáxia. Satisfazendo o seu picante desejo insinuado na mirada, respondo de jeito casual: “Perereca, e a sua…?” (Sem deixar muito evidente se foi uma pergunta ou afirmação). Ela sorri, mostrando todos os dentes e franzindo o nariz num gesto engraçadíssimo. Eu sorrio logo em seguida, me escondendo atrás do ombro como se ela fosse me jogar o pudim. “Ué, você queria saber, né?” Falo divertida, e mordo o meu lábio inferior, continuando com a brincadeira. Ela abre bem grandes os lindos olhos cor de amêndoa, num gesto como se não acreditasse no que acabou de ouvir, e esclarece com um gritinho agudo: “eu estava me referindo a algo doce, sua safada!”. “É claro”, disse eu, “se não fosse um docinho, eu nem ia querer comer, né?”.
Ela, com cara de tesão, sem desfazer seu grande sorriso, me pega pela manta de pescoço e me puxa para um beijo romântico. Some o chão sob nossos pés, o mundo ao nosso redor deixa de ser mundo; somos cobertas por um manto infinito enquanto flutuamos num universo de beijos e carícias. Pouco a pouco, as roupas vão cedendo espaço à pele nua; nossos corpos se fundem em um só sob o mesmo batimento cardíaco, uma pulsação única, que partilhamos com o cosmos.
Observo a cena de fora: as duas, e mais nada, flutuam se beijando, abraçadas, rosando pele com pele, completamente nuas, num nevoeiro de fumaça, projetadas numa bola de cristal. O cheiro de incenso e ervas de chá enche o espaço, respiro fundo e dou uma boa tragada no cachimbo para mergulhar novamente na esfera transparente à minha frente. Nela só há o meu reflexo virado de cabeça para baixo, apenas iluminado pelas chamas dançantes das velas.
A esfera é de cristal líquido, aderida em uma grande e perfeita teia de aranha. Ouve-se uma canção numa língua desconhecida para mim; demoro um instante a reconhecer que somos nós, quem juntas estamos cantando, com melodiosos e agudos sons felinos, enquanto a gente tricota a realidade toda, neste gigantesco tecido de fios luminosos. Eu não passo de uma neófita sendo guiada por elas: minhas irmãs, mães e avós. Mas também há algumas gatinhas a quem preciso guiar.
Quando ouso tirar a vista do tricô para observar ao redor, fico apavorada, pois a gente não está usando agulhas de tricô, e sim as próprias patas; muitas extremidades se estendem dos nossos fofos e peludos corpos de gatas brancas. Ela, quem está bem às minhas costas, olha feio para mim: eu perdi a concentração e tirei a vista do tecido, agora, e sem frear a melodia, todas precisamos desmanchar algumas voltas, para logo continuar com a eterna tarefa de gerar a matriz: um pintinho de condor quebra sua casca para dar a sua primeira respiração; a flor do mandacaru desabrocha entre os espinhos no meio da noite; uma flor de rosa atinge o êxtase; no tecido, milhares de bolhas de cristal de orvalho, pendurados duma finíssima teia de luz, refletem segmentos do filme da vida.
Somos nós as Deusas criadoras da nossa própria teia. Todas as bichanas-aranhas tecelãs continuamos tecendo a realidade por toda a eternidade no melodioso canto felino acompanhado do bater das pulsações do Universo. Onde está esse coração? Pergunto-me; então o vejo: a cada pulsação a teia está vibrando ao som, está refletindo o Divino coração. Estamos dentro dele, somos parte dessa fantástica fonte de vibração. Ela, a Divina fonte de vibração que nos dá vida e ritmo, está interagindo com tudo: os pássaros, o vento, uma folha caindo, duas mulheres se amando, até as ondas do mar são movidas por seu vibrar.
O grasnar de uma gaivota me tira daqueles devaneios profundos, nos quais me perdi vendo o vaivém do oceano infinito; coso meu nariz, meus dedos estão fedendo a peixe; pego a caneta à minha frente e escrevo na caderneta:
“Reflexões do Diário de bordo da Capitã:
Tudo acontece na mente…”
