contos e poesias

#QuebrandoEstruturas O Milagre da Vida Após a Morte

(Tradução do primeiro escrito que eu fiz na oficina de escrita em Los Hornillos, Cordova, Argentina. Abril do 2022) Subido no Blogspot

Faz um mês que a situação se tornou paranormal para o careca favorito do povo. Ele está vivendo mais de uma vida em simultâneo e não sabe como chegou até lá, ou se alguma delas é real. “Heroína! Heroína!” Pede os berros a multidão.

“Fuck life!” (Que se dane a vida!) pensa ele enquanto as luzes lhe ofuscam e a plateia, num entorno quase familiar, grita seu nome como se fossem milhares.

Suas respectivas mães estão preocupadas com ambas as vidas. De um lado, há um adulto suando profusamente enquanto ri para não chorar lágrimas de álcool, e do outro, um nenê de quatro semanas e meia que ainda não aprendeu a sorir e chora apenas por necessidade.

Conversar com ele é o que ambas as mães são aconselhadas a fazer, embora seja quase impossível para elas por razões muito diferentes.

“Everything is spinning!” (Tudo está girando!) Quem em sã consciência bebe tanto álcool em seu momento de glória, pior que não come há semanas! Odores fortes se misturam com doces xeros de flores queimadas.

Quase uma hora de intensos delírios de conexão com a fonte divina é a sua maneira de se humilhar diante das possíveis 300 pessoas que o amam sem entender muito bem o porquê. Ele puxa as calças para cima, que já revelam metade das suas nádegas peladas. A sincronicidade toma conta: enquanto a jovem mãe canta para que o bebê durma; a quilômetros de distância o adulto tan careca quanto o nenê, canta a mesma música simultaneamente, pensando na sua mãe distante que também consegue dormir não.

Os sinais do fim são evidentes para ele, embora ninguém pareça acreditar. Entre yin e yang, resta pouca distinção, e tudo está prestes a acabar… ou não.

Fuck Youuu! Vai se foder!!! Eu não me importo com nada! Ficou demais! De novo! Mais uma vez! Tocamos ela duas vezes hoje.

O show acabou? Só quero voltar para o meu quarto, ela está me esperando! pensa ele, sentado, atônito, no palco.

Momentos depois, sua amada flui entre as veias da vida e da morte. O tempo deixa de ser linear. Tudo se estende e se dilata enquanto a alegria e o relaxamento se tornam eternos. A terra pulsa dentro de mim, ou sou eu que pulso com a terra?

Desfruto de mais um orgasmo genital enquanto sou ela, gemendo de prazer, sabendo que ela está fazendo algo de que se arrependerá amanhã. Sou também o observador, o ato sexual, e o observado que, embora olhe, não enxerga pra mim. Um brilho ilumina o útero materno no instante em que o clímax gera vida.

Minha mãe idosa está agora, finalmente, prestes a adormecer, e ela me vê quando apareço a seus pés. Percebo isso em seu olhar assustado que me atravessa. Sou um fantasma? — “Luca! are you fine?” (Você está bem?) ela pergunta, levando a mão do coração à boca entre soluços. Eu sorrio para ela num gesto inconsciente, com intenção de ela ficar em paz.

Meu corpo magro e emaciado, ainda suando, jaz frio em posição fetal. Seu sorriso já não me conforta. Sim, eu morri. Mesmo que, anos depois, os grafites continuem a contradizer isso.

Que paz este lugar me traz! Já não me lembro como nem quando, mas sei que planejamos tudo isso junto, e sou muito feliz aqui. O clima quente é ideal, a luz suave e avermelhada, e este líquido rico, macio e lúdico escorre entre meus dedos enquanto minha mãe e eu continuamos a pulsar ao ritmo da música da vida universal… Sou muito feliz aqui! Consigo já me mexer e chutar agora, então desde seu ventre, sinto minha mãe chorando, e uma onda de rancor inunda meu ser. O que significa essa pressão? Choro com minha mãe também, na chuva, em total solidão. Ela já não me ama mais! O Cosmos, Deus, Tudo está chorando por minha causa; a vida toda, daqui pra frente é só pra trás, e tudo por minha causa!

Que paz este lugar me traz! Não importa mais que lá fora estejam decidindo de novo se vão me dar ou me matar; tudo está planejado assim. A barriga da mamãe está congelando e estamos com fome, mas aqui estou perfeitamente bem. Por que todos estão tão chateados? Que diferença faz eu ainda não ter um pai? Estou perfeitamente bem aqui, e tudo ficará perfeito; ainda me lembro que é assim. O quê? Como tudo aconteceu tão rápido? Será que finalmente chegou a hora de nascer?

AHHHHHHHHH

Sinto o cheiro do leite da mamãe, abro os olhos e acordo. Acordo sorrindo; a vida está apenas começando! Aos poucos, começo a esquecer aquele doce sonho. “já consegue rir, meu nenê”, suspira a mamãe, enquanto coloca seu bebê de um mês e três dias nos braços das babá de plantão. No rádio, toca “Mejor no Hablar de Ciertas Cosas” (Melhor nem falar de certos asuntos) seguido pela voz de “Luca não morreu”, foi então que eu, já vivendo uma vida só, desabei em lágrimas.

Uma das milhares de grafites iguais que dá pra encontrar nas paredes da Argentina